O serviço na Semana Santa

30 de Março de 2019


 Pedagogia de abril 2019

 
Uma vez que a primeira celebração do mês de abril foi comentada na pedagogia de março, no contexto de uma reflexão quaresmal, esta pedagogia litúrgica de abril inspira-se e concentra-se nas celebrações da Semana Santa e no início do Tempo Pascal.
Vamos propor esta pedagogia litúrgica com dois temas. No primeiro, o serviço divino exercido por Jesus, o servo obediente de Deus. No segundo, este no contexto dos dois primeiros Domingos pascais, o tema do envio missionário no contexto do kerigma, do anuncio da Ressurreição de Jesus.
 
Jesus, o servo obediente de Deus
            O tema do serviço é totalmente pertinente na reflexão da Semana Santa. Está presente na Palavra do Domingo de Ramos, apresentando Jesus como servo obediente que, pela obediência ao projeto do Pai, fez da sua vida terrena um serviço em favor da vida humana. É o próprio Jesus que se apresenta como alguém que veio para servir e não para ser servido (Mt 20,28). Tal disposição de servir está simbolizada na sua entrada em Jerusalém, no Domingo de Ramos, montado num jumentinho, animal servidor, cooperador nos trabalhos diários das pessoas, no tempo de Jesus e, ainda hoje, em muitas partes do mundo.
            A cena de Jesus entrando em Jerusalém montado num animal de serviço simboliza sua atividade servidora e indica o serviço como alternativa ao poder social. Não o poder da dominação, que cria classes entre servidores e servidos, mas o poder pelo serviço, que cria relacionamentos de ajuda mútua pela fraternidade.
            Noutro momento da Semana Santa, o serviço divino realizado por Jesus está simbolizado no rito do lava-pés. Na Quinta-feira Santa, Jesus ritualiza a vida cristã no gesto de lavar os pés de seus discípulos, com a recomendação para fazer o mesmo que fizera (Jo 13,15). Neste mesmo contexto, outro gesto coloca em evidência a amplitude deste serviço como doação da vida: o gesto da “fractio panis”; um gesto doméstico que Jesus transformou em sacramento da doação da sua vida divina para todos os tempos e em todas as partes da terra.
A “fractio panis” favorece a compreensão da Eucaristia em relação ao pão como fruto do trabalho humano e como necessário para alimentar a vida humana. Símbolo do que é essencial para a existência humana. A fração do pão representa a partilha da vida, a partilha do trabalho humano, não com o fim egoísta do enriquecimento, mas como promoção da vida partilhada entre todos. O gesto diário de repartir o pão, fruto do trabalho humano, em nossas mesas, é usado por Jesus como doação da vida divina no altar, local onde se oferece a Deus um sacrifício santo e agradável, mesa onde é repartido o Pão da vida e o Cálice da Salvação.
Aquilo que Jesus realiza ritualmente, na Última Ceia, é vivenciado no seu corpo em sua Paixão e Morte. É a entrega plena da sua vida, presente no seu corpo, como oferenda (sacrifício) ao Pai. Na Paixão de Jesus, o amor divino torna-se serviço na doação da vida divina em vista da plenitude da vida humana. A Palavra da Sexta-feira Santa, no contexto do serviço, ilumina-se no servo sofredor; alguém que se faz servidor da humanidade acolhendo a vontade divina, e por causa disso, passa, faz sua passagem (faz sua Páscoa) pelo sofrimento humano. Gesto compreendido como serviço obediente ao Pai, simbolizado no “servo sofredor” de Isaias (Is 52,13—53,12).
A obediência é um aspecto natural de quem se faz servo. Todo servo fiel é servo obediente, alguém que acolhe a vontade do seu Senhor. Assim viveu Jesus. E assim podemos mensurar a grandeza e a profundidade da obediência de Jesus ao projeto do Pai. Tamanha foi sua obediência, tamanha sua fidelidade que aceitou passar (fazer sua Páscoa) pela morte de Cruz, considerada morte ignominiosa.
 
A reação divina
            Todo este conteúdo, teologicamente compreensível, causa dificuldades do ponto de vista humano. O conhecido questionamento — por que Deus, que é bondoso e misericordioso, permitiu que seu Filho morresse? — enfraquece-se na Teologia do Servo Sofredor; na Teologia do Serviço. Os servos de Deus, na Bíblia (e fora da Bíblia), sempre se confrontaram com o sofrimento humano e, muitos deles, com a morte, com o martírio. A causa está em Deus ou na dificuldade humana de acolher o projeto divino? Ou de se incomodar com o projeto de divino, a ponto de causar sofrimento aos servos de Deus?
            Outro questionamento: a reação divina. Como Deus reage diante da morte do seu Filho ao expressar seu sentimento de abandonado pelo próprio Pai (Mt 27,46)? A resposta está na Vigília Pascal e no Domingo da Páscoa: a reação divina é a Ressurreição; a destruição da morte.
A Páscoa de Jesus é a passagem pela morte; passagem como indicativo de não permanência. Deus não deixou Jesus na morte; ele desce e passa pela "mansão dos mortos", mas lá não permanece; passa pela mansão dos mortos e lá derrota a força da morte com a sua Ressurreição. O início da Vigília Pascal ritualiza esta passagem da escuridão da noite para a iluminação da luz da Ressurreição simbolizada no fogo novo. A Páscoa de Jesus é a luz divina para o mundo.
 
O envio evangelizador
Três luzes acendem o contexto celebrativo do Domingo Pascal, na ótica do serviço. Se até o momento, o foco era mostrar o serviço divino, a partir do Domingo da Páscoa, este serviço, agora, é transferido aos discípulos e discípulas de Jesus.
A primeira luz desafia e interroga nosso modo de viver a partir do exemplo de Jesus, que passou neste mundo fazendo o bem. A segunda luz convida-nos a tirar tudo que fermenta maldade e pecado em nossa vida para alimentar-nos com os pães ázimos (pureza e verdade) da Páscoa de Jesus. E, por fim, a terceira luz, é o convite para correr ao sepulcro com a Sagrada Escritura no coração e participar da experiência da Ressurreição de Jesus. É uma experiência que nos tornará anunciadores da obra maravilhosa realizada por Deus, como aconteceu com os discípulos que encontraram o túmulo vazio.
Anunciar a Ressurreição de Jesus é um serviço que nós, cristãos, discípulos e discípulas de Jesus, prestamos à humanidade. As aparições de Jesus, como relatado no 2º Domingo da Páscoa, fazem parte das provas da Ressurreição de Jesus. Aparições que aconteciam sempre no dia da sua Ressurreição, no Oitavo Dia. Aparições que não serviam apenas para matar a saudade, mas para realizar e fortalecer o envio evangelizador. Nestas aparições, Jesus fortalece seus Apóstolos a não terem medo de evangelizar, de anunciar no mundo inteiro a sua Ressurreição.
Para isso, a necessidade da fé, relatada no 2º Domingo da Páscoa, no encontro de Jesus com Tomé. Necessidade da fé porque, simplesmente, não se pode realizar o serviço evangelizador sem a fé; sem crer na Ressurreição de Jesus mesmo sem ver.
Serginho Valle
Março de 2019