Existe uma premissa que não pode ser ignorada: todas as celebrações precisam ser preparadas — e preparadas do melhor modo possível. A preparação das celebrações pode ser considerada em vários níveis. Na preparação de uma Eucaristia, por exemplo, podemos destacar a preparação da Missa Dominical, que se realiza de modo diferente da preparação da Missa nos dias da semana. As duas são, por sua vez, diferentes de preparar a celebração de um Sacramento. E entre os próprios Sacramentos também existem diferenças: há um modo de preparar a celebração do Batismo e outro de preparar a celebração de um Matrimônio — e assim com cada celebração sacramental.
O ponto a ser enfatizado é a necessidade de preparar as celebrações. A tese de que preparar uma celebração coloca em risco a "espontaneidade" é falsa, porque sempre existe uma preparação. E isso pode ser avaliado em diferentes escalas: preparação pessoal, preparação comunicativa, preparação mistagógica — com a finalidade de acender uma luz evangelizada e evangelizadora para cada celebração. Com isso, estou enfatizando que toda celebração deve ser preparada. Liturgicamente falando, não se admite improvisar.
O perigo de se aproximar de modo improvisado de uma celebração é real. No caso da presidência, por exemplo, deixar que o "clima contextual" do momento conduza a celebração é arriscado. O mesmo se diga diante da repetição ritual, presente em todas as celebrações litúrgicas, que propõe o hábito e, por sua vez, o risco da automação: celebrar de modo automático, repetindo ritos e palavras com a notória ausência da inserção da vida pessoal e comunitária. Celebrações que não dizem nada para a vida. Celebrações que não interferem na vida.
A Palavra de Deus ilumina toda celebração
É a Palavra de Deus que ilumina toda celebração litúrgica e, assim, é ela que ilumina tanto a preparação pessoal quanto a preparação da celebração realizada em equipe. Vamos nos ater a essa última situação: a preparação da celebração litúrgica feita por uma equipe para ser celebrada na comunidade.
É a Palavra de Deus que ilumina os ritos iniciais, que ilumina a Liturgia da Palavra, evidentemente, que ilumina as monições, que ilumina o motivo pelo qual se comunga em cada celebração Eucarística e que ilumina o compromisso concreto no momento do envio.
É ainda a Palavra de Deus que ilumina a escolha das canções, a escolha dos símbolos e dos gestos que serão introduzidos em algum rito. A Palavra ilumina o silêncio, para que seja acolhida no coração de cada celebrante. Toda a celebração é conduzida e iluminada pela Palavra de Deus. Isso exige que a celebração seja preparada em modo mistagógico, quer dizer, deixando-se conduzir pela Palavra sem tirar o olho da realidade social e histórica.
A intimidade com a Palavra de Deus
Tratando-se da preparação de celebrações comunitárias — como é o caso das Missas, mas também do Matrimônio, do Batismo, da Confirmação, da celebração comunitária da Penitência e de outras celebrações litúrgicas na comunidade —, a premissa é muito clara: é necessário ter intimidade com a Palavra de Deus.
A intimidade com a Palavra de Deus é uma condição de contato pessoal entre a Palavra e aquele que prepara a celebração. É uma intimidade que acontece pelo contato contínuo e diário com a Palavra através da meditação, da oração e, em vista da preparação de celebrações litúrgicas, pelo aprendizado sempre renovado de olhar a realidade iluminando-a com a luz da Palavra de Deus. Diante de qualquer situação — conflitante ou feliz, alegre ou triste, desafiadora ou inquietante —, a pergunta é sempre a mesma: como a Palavra de Deus ilumina esta situação? Uma boa preparação da celebração, especialmente das Missas Dominicais — e particularmente da parte da presidência —, não pode deixar de propor esse questionamento.
Quando tal exercício é realizado, a preparação de uma celebração levará em conta a luz da Palavra de Deus em todas as linguagens comunicativas da celebração. Falo da linguagem verbal, da linguagem gestual, da linguagem musical: todas as linguagens utilizadas em uma comunicação litúrgica funcionam como amplificadores da Palavra de Deus, com a finalidade de atingir a vida dos celebrantes. A finalidade é sempre a mesma: acender a luz do olhar divino diante da realidade existencial. A pergunta, neste caso, seria: como Deus vê esta realidade que acontece na comunidade?
Isso vale também para as Equipes de Celebrações. Se todos os membros de uma Equipe cultivarem intimidade com a Palavra de Deus, o encontro preparatório das celebrações servirá como enriquecimento pessoal e irá reverberar nos celebrantes que participarão da celebração. A preparação das celebrações é sempre um momento de oração, de meditação e de nutrição espiritual pela Palavra de Deus.
O estudo da Palavra de Deus
O segundo elemento para que a preparação da celebração aconteça de modo adequado é o estudo da Palavra de Deus. É um elemento que requer algumas condições: fundamentos de Teologia Bíblica, conceitos exegéticos, conhecimento das características literárias dos autores bíblicos, em alguns casos a datação histórica da perícope usada na Liturgia, o conhecimento da proposta moral da perícope litúrgica — como, por exemplo, das cartas paulinas. No contexto de uma preparação, esse estudo pode ser informativo, sem a necessidade de um aprofundamento especial, mas importante para entender alguma interpretação e não usá-la literalmente, por exemplo.
O estudo se tornará ainda melhor se for acompanhado por pessoas que se dedicam a pesquisar a Palavra de Deus, como exegetas, biblistas e comentaristas de literatura bíblica. A formação para o sacerdócio sempre considera, de modo intenso e profundo, a formação bíblica. Por isso, o padre é o primeiro responsável por essa formação. Mas também os leigos que participam da Equipe Litúrgica e das Equipes de Celebrações deveriam ter possibilidades de realizá-la.
Esse estudo considera também autores que aprofundam a Palavra de Deus a partir de algum viés de pesquisa — no campo da espiritualidade, no campo da moral, no contexto da história de Israel —, bem como teólogos da espiritualidade que propõem textos para conhecer melhor o conteúdo da Palavra de Deus. Em síntese: quem se dedica a preparar a celebração precisa ter algum conhecimento bíblico, mesmo que seja introdutório ou básico, e isso acontece através do estudo.
No caso da preparação da Liturgia, a leitura bíblica acontece a partir do que se denomina Lectio Liturgica — o modo particular com o qual a Liturgia lê e interpreta a Sagrada Escritura. Assim como existe uma metodologia própria para a leitura bíblica iluminada pela espiritualidade, pela Teologia e pela Lectio Divina, existe a metodologia de entrar em contato com a Palavra a partir da Lectio Liturgica, que é o modo próprio com o qual a Liturgia lê, interpreta, medita e reflete a Palavra de Deus. Isso não diz respeito somente à Liturgia da Palavra, mas a toda a celebração litúrgica.
Com tudo isso, compreende-se a importância do estudo da Sagrada Escritura para aprofundar a intimidade com a Palavra de Deus e, logicamente, oferecer mais condições para preparar celebrações profundamente evangelizadas e evangelizadoras.
Preparar os ritos com a Palavra
Um terceiro elemento para preparar bem uma celebração litúrgica — Missas, batizados, confissões, casamentos — é discernir cada momento celebrativo iluminando-o com a Palavra de Deus. A Missa, por exemplo, acontece num contexto social de uma realidade própria de uma comunidade. A preparação da Liturgia de um casamento realiza-se conhecendo os noivos e seus familiares e iluminando a Palavra de Deus para preparar ritos sempre guiados por ela — e nunca por modismos.
A Palavra de Deus, na preparação da celebração de cada Sacramento — mas especialmente da Missa —, aprofunda o olhar e, com isso, torna a celebração mais evangelizada e iluminada não por critérios humanos, como poderiam ser os critérios políticos ou de alguma ideologia, por exemplo. A Liturgia deixa de ser um conjunto de ritos e passa a ser um momento de profundo contato com a vida pessoal e com a vida da comunidade.
Conhecer o que é e o que significa celebrar liturgicamente
Existem duas condições fundamentais em se tratando de preparar bem uma celebração litúrgica. A primeira foi descrita até o momento: a necessidade de preparar a celebração iluminando-a com a Palavra de Deus. A segunda condição é o conhecimento da realidade — seja a realidade pessoal, envolvendo a vida das pessoas de uma comunidade, seja a realidade social e política que marca a história da comunidade. Por que esses elementos são importantes?
Porque a Palavra de Deus não é abstrata. Ela sempre produz frutos, como ouvimos na bela profecia de Isaías sobre a eficiência da Palavra de Deus: "assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não retornam, assim minha Palavra não volta sem ter produzido frutos." (Is 55,10-11). De maneira um tanto ousada, podemos nos arriscar a perguntar: se nossas celebrações não produzem frutos, será que o motivo está em não serem preparadas considerando a realidade histórica atual da comunidade? Nenhuma celebração é igual à outra e nenhuma pode ser copiada — muito menos lida em folhetos ou em celulares, como, infelizmente, começamos a perceber em muitas comunidades.
Apresento agora uma terceira condição: conhecer a celebração litúrgica, quer dizer, conhecer liturgicamente; saber o que é a celebração litúrgica. O adjetivo "litúrgica" é importante não somente como distinção de outras celebrações, mas para evidenciar que a celebração litúrgica tem um conteúdo que só pode ser compreendido à luz da Palavra de Deus. É não esquecer que a celebração é "memorial" e que, em cada celebração litúrgica, por ser memorial, celebra-se o Mistério da Salvação. Por isso, há a necessidade de conhecer que na celebração litúrgica acontece o exercício da ação sacerdotal de Jesus na celebração, compreendida a partir da Palavra de Deus.
Poderia me estender em outros aspectos e dimensões da celebração litúrgica. Mas, sobre a Teologia e a comunicação da celebração litúrgica, gravei 5 Catequeses sobre Celebração Litúrgica que podem ajudar muito na sua formação — e na formação dos agentes litúrgicos da sua comunidade. São reflexões catequéticas em vídeo, acompanhadas de apostila em PDF e sete artigos temáticos. Você encontra mais informações e pode adquirir a formação em: https://lp.liturgia.pro.br/celebracao-liturgica-catequeses
Concluindo
A celebração é bem preparada quando a Palavra de Deus encontra pousada no coração do presidente da celebração, em primeiro lugar, mas também no coração de todos que exercem algum ministério celebrativo: leitores, músicos, arranjadores. O padre, dado o protagonismo que exerce através da presidência celebrativa, precisa acolher e ter intimidade com a Palavra de Deus. Também os músicos devem ter a Palavra de Deus em seus corações, para que possam cantá-la em suas vidas e, através do seu ministério, na vida dos celebrantes. O mesmo vale para os leitores e leitoras, arranjadores e ministros da distribuição da Comunhão Eucarística.
Dentre os ministérios, entende-se que os leitores — por serem proclamadores da Palavra divina na assembleia litúrgica — têm, por dever de consciência, a necessidade de se dedicar com mais atenção e cuidado a meditar, estudar e fazer experiência de vida com a Palavra que proclamam na assembleia litúrgica.
Esta é uma atividade à qual, no sentido de oferecer iluminação mistagógica, nós do SAL — www.liturgia.pro.br — nos dispomos a ajudar as comunidades paroquiais a preparar as celebrações das Missas Dominicais. Reforço e insisto: as celebrações são preparadas e propostas com a pedagogia mistagógica. Isso significa que cada celebração é iluminada pela Palavra de Deus — sempre iluminadora da vida —, que está conectada com a celebração do Domingo anterior e, de certo modo, já antevê a celebração do Domingo seguinte. É uma atividade ininterrupta que continuadamente semeia a Palavra de Deus em celebrações evangelizadas e evangelizadoras.
Se você deseja aprofundar ainda mais a compreensão sobre o que é a CELEBRAÇÃO LITÚRGICA — condição fundamental para preparar bem qualquer celebração —, convido você a conhecer as 5 Catequeses sobre Celebração Litúrgica, disponíveis em:
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Uma formação acessível, em linguagem clara e pastoral, para padres, diáconos, leigos e membros de ministérios litúrgicos.
Serginho Valle
Junho 2026

